Este texto foi apresentado a mim hoje pelo meu filósofo Johnny Dias. Achei incrível e pedi autorização do autor para postar aqui no site. “Não É Homofobia: Uma História Real” é um relato corajoso, que nos faz refletir sobre os limites da liberdade de expressão e o desrespeito à dignidade da pessoa humana. Leitura obrigatória à ativistas e a quem é contra a homossexualidade. (Marcelo Gerald)
Infelizmente, as histórias na crônica abaixo são reais. A crônica também.
“Homofobia: descrédito, opressão e violência contra homossexuais, isto é, os ditos lésbica, gay, bissexual, travesti, transexual ou transgêneros” (Dra. Sônia Vieira – Unicamp, 2009)
“- A Constituição nos dá o direito à livre expressão.
- O direito à livre expressão não dá a ninguém o direito de cometer um crime” (Law & Order: Special Victims Unit)
Por Ruleandson do Carmo
Eu tinha dois anos de idade e gostava de imitar Michael Jackson, quando o via dançando na TV. Era louco com ele. Saí um dia com meu pai e fiquei murmurando a música do Michael e rebolando com minha mãe. “Seu filho já nasceu boiola”, disse o amigo do meu pai que só parou de rir quando fomos embora. Não era homofobia, ele estava apenas se expressando.
Aos quatro anos comecei a dançar Ballet no Núcleo Artístico em Belo Horizonte, meus pais, irmão, avó e madrinha estavam nas apresentações e premiações, o restante da família e amigos não: “Isso não é coisa de homem. Não faz essas coisas de mariquinha”, eles diziam. Não era homofobia, eles estavam apenas se expressando.No pré-primário a professora me colocava sempre junto das meninas, pois os meninos me batiam, e não gostavam de sentar “perto da bichinha”. Não era homofobia, eles apenas estavam se expressando.
Na primeira série pedi à diretora para apresentar uma peça de teatro na escola, apresentei e alguns me xingaram de “boiola, bicha” etc. Meu pai foi à escola reclamar e a professora disse a ele “tratam seu filho assim porque ele não é normal”. Não era homofobia, eles estavam apenas se expressando.
Na quarta série um colega de sala me deu um tapa na cara e gritou comigo, “veadinho, essa vozinha de galinha”. Não era homofobia, ele estava apenas se expressando.
Na quinta série, no colégio, o diretor e a pedagoga mandaram chamar minha mãe. “Seu filho dança ballet, escreve teatro, só anda com as meninas, não joga futebol. Seu filho tá virando veado e a senhora apoia, não faz nada?”. Minha mãe me defendeu, a chamaram de louca e ela me levou embora, aos prantos. Não era homofobia, eles estavam apenas se expressando.
Também na quinta série, participei das Olimpíadas da escola, na modalidade salto à distância. Quando você corre e pula, naturalmente seus olhos arregalam. Quando pulei, jogaram areia nos meus olhos e gritaram “pula, bichinha”. Fiquei alguns dias com os olhos feridos. Não era homofobia, eles estavam apenas se expressando.
Entre a sexta e a oitava série, me batiam de vez em quando no final da aula, me derrubavam nas aulas de educação física, alternavam meus apelidos entre “RuleBambi” e “Bailarina”, e sempre repetiam “vira homem, veado”. Não era homofobia, eles estavam apenas se expressando.Na oitava série eu queria dançar quadrilha. Nenhuma das meninas quis dançar comigo, elas riam “Ah, Ru, você tinha que ser mais homem ou dançar com homem”. Fiquei triste, e a professora de educação física disse “eu danço com você”. Não era homofobia, elas estavam apenas se expressando.
No segundo grau mudei de escola e lá apanhei também. A diretora me mudou de sala, os novos colegas riam, mas não me batiam. Não era homofobia. Eles estavam apenas se expressando.
Quando trabalhei de garçom junto com meu pai, um dia fui sozinho. O cara que ficou de chefe no lugar do meu pai ordenou que “carregasse sozinho os botijões. Vamos ver se ele é homem mesmo”. Não era homofobia, ele estava apenas se expressando.
Na faculdade, um colega de turma me agrediu fisicamente, pois eu o abracei quando o vi durante o almoço. “Tá me estranhando? O que você quer?”, me disse ele. Não era homofobia, ele estava apenas se expressando.
Formado, trabalhando em um jornal impresso em início de trajetória, meu chefe me comunicou minha demissão “meu sócio, dono das máquinas disse que não quer veado no jornal”. Não era homofobia, ele estava apenas se expressando.
Pouco depois uma amiga me convidou para a festa da irmã, eu e nosso grupo de amigos. Todos ganharam dois convites. Eu ganhei só um. Quando pedi o segundo convite ela me disse “Ru, é uma festa de família, não fica bem se você for acompanhado”. Não era homofobia, ela e a família dela estavam apenas se expressando.
Certa vez, na Savassi, região nobre de Belo Horizonte, estava sentado na praça com meu par, um cara passou e cuspiu em nós. “Que nojo” ele disse, fomos defendidos por um policial. Não era homofobia, ele estava apenas se expressando.
Em 2008, escrevi sobre o preconceito contra gays e divulguei o texto no Orkut. Uma comunidade dita católica contra “homofacistas” (como alguns chamam os gays anti-homofóbicos) fez uma série de denúncias contra meu perfil ao Google, dizendo ter conteúdo impróprio, me perseguiram e ameaçaram virtualmente. Tive que criar outra conta no Orkut. Não era homofobia, eles estavam apenas se expressando.
São alguns dos tristes trechos dos quais me recordo. Já fui e sou desacreditado, oprimido e violentado verbal e fisicamente por pessoas que nunca esconderam o motivo para tal: eu ser gay. Mas, não se preocupe, não vou me fazer de vítima, não vou culpar a sociedade ou algum participante bronzeado, prateado ou dourado do Big Brother Brasil. Não, não era homofobia, nunca é. Eles sempre estavam e estão apenas se expressando. Eu também.
- Eu não esperava que você entendesse!” (Heroes)
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Ao ler essa historia vi muito da minha vida (desculpem a falta de acentos no texto).
A diferenca eh que no meu caso, eu nao pude fazer ballet pq minha familia dizia achar ridiculo, minha mae detestava quando eu dancava, independente do que fosse, eu nao podia andar de patins pq nao era “bailarina do gelo” e coisas do tipo.
Na escola, apesar de adorar estudar, eu detestava ir a aula pq todos os dias apanhava. As aulas de educacao fisica que eram fora do horario de aula era uma verdadeira tortura. Eu faltava em quase todas e era reprimido por isso pela professora, que, mesmo ao notar o meu desconforto, silenciava diante dos ataques dos outros alunos ao mesmo tempo que me obrigava a jogar futebol mesmo sem eu ter vontade alguma, apesar de deixar dois outros alunos ficarem no banco…esses dois tbm gays, mas visinhos da mesma.
Depois que cresci, mudei de escola e no ensino medio as coisas mudaram um pouco, na escola em que estudei, apesar de publica e na periferia, era o ambiente mais tolerante que conheci. Haviam meninas que se beijavam no patio e quando o diretor uma vez as reprimiu, houve um levante dentro da escola, inclusive os alunos evangelicos, os quais todo o mundo acreditava serem os que “discriminavam”, foram participantes do levante.
Mas a discriminacao real continuou na familia, com os meus pais e irmaos, alguns vizinhos tbm. Mas eu parei de ligar para isso e comecei a viver a minha vida da minha maneira. Como esta no texto “eles estaam apenas fazendo uso do direito de livre expressao”.
Fui discriminado por policiais civis uma vez no parque ibirapuera, no qual uma policial, ao me ver conversando com um rapaz, disse que era para sairmos do local pq o chefe da viatura parada proximo ao banco nao gostava de gente do nosso tipo, e se quisessemos juntar com gente da nossa laia, deveriamos ir para o autorama que la era o nosso lugar. Nesse dia chamei a policia e, nao sei se foi pelo motivos dos civis e militares nao se tolerarem muito, mas os policiais militares foram de grande prestesa e nos apresentaram inclusive um advogado.
Enfim, vivemos em uma sociedade em que as pessoas te xingam, te agridem fisica e psicologicamente, te exclui, te torna um cidadao de segunda classe….mas tudo isso fazem sem culpa, estao apenas usando a liberdade de expressao.
Ótimo texto….
Marcelo Gerald me agradeceu por compartilhar com vocês a história do Ruleandson, mas saiba que ao ler foi a primeira coisa em que pensei: ” A história dele não poderia ficar no anonimato”, porque também ela é um pouco a minha, e quem sabe a sua , história.
As palavras soaram como trovões em meus pensamentos e conceitos, meu corpo conceitual fora ficando pequeno frente a apresentação de dor que as palavras de Rule tomava.
Fiquei pensando no de dentro do de dentro dele, aquele estágio ou espaço tão íntimo que não podemos revelar ou nomear, seja por falta de palavras ou por elas pouco acessarem ao real sentido.
Rule não é apenas herói, ele é um Nietzsche pós-moderno, ele que se embalsama em Baumann, ao criar seus próprios conceitos, ele nos ofereceu o sangue de uma placenta, que hoje gerou o futuro, e este futuro, muito significativo, só acontecerá se os leitores, conscientes da leitura e de sua urgência, se postarem de maneira clara, ao seu modo, mas nunca optando pelo silêncio, pois este só é devido quando o mais importante já fora dito.
Tão simples e tão triste é realmente lamentável como os seres humanos tratam uns aos outros. Mas acredito que não se oprimindo, se expressando, mostrando quem você verdadeiramente é que conquistaremos espaço e poderemos viver livremente as nossas vidas. Ruleandson do Carmo você é um heróis da vida real. Parabéns.