Por Karla Joyce
Em primeiro lugar, peço desculpas pela demora no texto. Não digo que foi algum tipo de enrolação de minha parte: realmente a tensão no dia da votação estava alta foi difícil processar tudo conforme ocorreu. Fui conferir a discussão e a acertada não votação do PLC 122 no Senado espiritualmente preparada para o que poderia acontecer. Mas não tão preparada para os absurdos que relatarei. Não farei um texto essencialmente político. Darei uma visão de cidadã e cientista política presente na Comissão de Direitos Humanos do Senado, onde os direitos humanos estiveram longe de ser celebrados.
As fotos que apresentarei aqui não são minhas. São da Cia. Revolucionária Triângulo Rosa (coletivo LGBT do DF) e do ativista Marcos Oliveira, pessoas que são algumas das muitas testemunhas do que irei relatar.
O início
Tudo se desenhava para que a discussão e possível votação do PLC 122 na Comissão de Direitos Humanos e Minorias do Senado Federal fosse mais uma batalha da luta LGBT ante ao fundamentalismo. E realmente foi. Fui preparada para enfrentar um show de homofobia, intolerância travestida de princípios religiosos e má vontade para negociações. Preparada para ver a manifestação de um grande império. Mas não o “império homossexual” que Magno Malta tanto teme (está difícil resistir?). E sim o império do uso político da fé.
Ao chegar a uma das entradas do Senado, tive que esperar até às 9h da manhã para seguir para a Comissão. Algo que para a rotina de lá é incomum. Talvez seja para barrar manifestantes prontos para arrumar confusão (leia-se: manifestantes contrários aos grandes interesses). Por sorte, minha espera não foi longa. Foi o suficiente para perceber que o império se manifestava: percebi que um veículo entrou na garagem do Senado e desta garagem saíam várias pessoas.
Pessoas simples, de aparência humilde e que se aglomeravam na fila de espera, enquanto os seguranças do Senado faziam a identificação das pessoas e, não tão comum para a rotina, verificavam se tinham cartazes para barrá-los na entrada, do mesmo modo que houve na votação do Código Florestal. O império se manifestou mais uma vez: um segurança do Senado fala, para fila, que quem iria a “reunião com o pastor” deveria aguardar e seguir para outro lugar. E outro segurança comentou com este, durante a revista dos cartazes, se o “escritório ia caber tanta gente”. Isto mesmo: “reunião com o pastor” nas dependências do Senado! Não fiquei muito tempo para saber que reunião e que pastor eram estes porque minha passagem havia sido liberada.
Chegando ao plenário da Comissão, não havia mais lugares para se sentar. A solução foi procurar alguma parede para se escorar. Durante esta busca, ouvi vozes altas vindas de uma sala que fica atrás do Plenário. Seria lá a tal “reunião com o pastor”? Não tive tempo de averiguar: assim que as vozes se calaram, as pessoas simples que estavam na fila na entrada do Senado agora entravam no Plenário. Estranhamente, elas “surgiam” da sala de trás do recinto, onde funciona a parte administrativa da Comissão. Lembrem-se: “reunião com o pastor” nas dependências do Senado. O que será que eles fizeram? A resposta eu tive durante a votação…
Início da votação do PLC 122: plenário lotado
Corredores lotados no Plenário da Comissão de Direitos Humanos do Senado
Vejam a simplicidade das pessoas que eram contra o PLC 122: será que esta senhora leu o projeto?
O império se manifesta
Durante a procura por um lugar confortável, percebi que algumas pessoas portavam cartazes impressos feitos pelo Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política (Fenasp) prontos para serem espalhados no milagre da multiplicação. E, pasmem, colegas tiveram cartazes barrados na entrada no Senado, mas os “fiéis” não, tanto que suas faixas foram milagrosamente salvas e penduradas.
Não havia faixas penduradas no início da votação, mas…
Os “evangélicos” fizeram o milagre da multiplicação das faixas impressas. Os militantes LGBT’s respondiam com pequenos cartazes feitos à mão.
Milagre da multiplicação dos cartazes impressos: estas adolescentes leram o PLC 122?
Será que o senhor que segura o cartaz da Fenasp leu o PLC 122?
Durante a espera, todo um roteiro se desenrolava: percebi que a maioria dos presentes eram dessas pessoas simples, que nem leram o texto do PLC, adeptas do “meu pastor mandou” e prontas para “combater o demônio”. A simplicidade e humildade das roupas e dos gestos destas pessoas contrastava, e muito, com o luxo de suas lideranças e seus pastores-deputados/senadores, que ostentavam relógios caros, joias, ternos finos e muito íntimos com o poder. Em relação aos LGBT’s e favoráveis à matéria, eram minoria. As fotos que postei revelam isto.
O “show” começa quando o PLC122 começa a ser discutido. A cada anúncio de nome de pastor ou deputado/senador – pastor ali presente, um pastor pedia aplausos. Quando a presença era de parlamentar pró-LGBT, vaias. Aliás, o Sen. Paulo Paim as proibiu depois de um tempo.
Todas e todos já se “armam” com seus cartazes. E alguns “evangélicos” presentes começavam a escrever respostas “bíblicas” para os cartazes pró-LGBT. Eles direcionavam essas respostas aos portadores de cartazes pró-LGBT, talvez em uma tentativa de “evangeliza-los”. Os cartazes que milagrosamente apareceram foram pendurados nas laterais do Plenário. Pessoas subiam em cadeiras para empunhar sua mensagem “cristã”, prontamente impedidas pela Polícia do Senado. Mas não por causa da mensagem: não se pode subir nas cadeiras.
O cartaz em destaque havia sido barrado na entrada do Senado, como havia falado. Como ele entrou?
Mais cartazes impressos que “estranhamente” entraram nas dependências do Senado.
Outro cartaz que entrou nas dependências do Senado
Provocações
E o pessoal da Cia Revolucionária Triângulo Rosa, que lutou bravamente para dar resposta aos cartazes nada cristãos dos evangélicos ali presentes, passou a ser alvo de várias provocações. O mais grave: os provocadores eram lideranças evangélicas. Um destes provocadores foi o Pr. Abner Ferreira, que já “evangelizou” no Rock in Rio deste ano.
Era comum que alguns provocadores falarem que “gays deveriam ser salvos” falavam que estavam sofrendo “heterofobia” e filmavam os rostos dos militantes.
Pastor que “evangelizou” no Rock in Rio.
Por que o pastor tira fotos dos Militantes da Cia Triângulo Rosa?
Alguns destes provocadores, segundo o pessoal da Cia Triângulo Rosa, faziam ameaças graves de agressão. Em um determinado momento, os ânimos se exaltaram porque os militantes clamavam pela retirada dos provocadores do Plenário. O Senador Paulo Paim teve que intervir para os provocadores saírem de perto dos militantes da Cia. Triângulo Rosa. Para provar que não estou inventando histórias, vou postar uma sequência de fotos mostrando o deslocamento destas pessoas, algumas repetidas inclusive.
1:) Início da votação: não havia ninguém atrás dos militantes da Cia Triângulo Rosa
2:) O outro lado do Plenário no início da votação: preste atenção nestes homens
3:) Durante a votação: estes homens começam a mudar de lugar
4:) Foram parar atrás dos militantes, no momento em que estes mais reclamavam que recebiam ameaças:
5:) Momento em que a confusão se iniciou e quando Paulo Paim interveio: vejam onde eles estavam (fonte: Agência Senado)
O Senador Paulo Paim deveria ter retirado estes dos homens do Senado, porém pediu apenas para eles saírem dali. Mudaram apenas de lado e foram parar logo atrás do homem que provocava as Senadoras Marta Suplicy e Marinor Brito. Sobre este que gostaria de uma atenção especial: no momento, não sabia ao certo quem era. No dia seguinte, descobri que é Wilton Acosta, presidente da Fenasp. Vejam como ele estava no início da votação:
E como ele se porta quando o projeto é discutido, com um adesivo na boca e fazendo gestos para as Senadoras Marta Suplicy e Marinor Brito (não captados pelas fotos): onde está o respeito?
Observações:
Na parte dos discursos dos parlamentares, vi o quanto é ótimo se ter bravos guerreiros e guerreiras ao nosso lado como Lídice da Mata, Jean Wyllys e Cristovam Buarque para a defesa do PLC. Isto diante de um Magno Malta e Marcelo Crivella que faziam malabarismos em seus discursos para agradar seu público (apenas) e tentar justificar (usando em vão o nome de Deus) o injustificável: a do primeiro sangue por intolerância foi de um “evangélico” a época do descobrimento do Brasil (que foi no século XVI, sendo que o Protestantismo surgiu no século seguinte), ou que “deficientes não escolhem nascer assim, mas os homossexuais optam por este comportamento”.
A atitude de Marta Suplicy foi mais que correta e rebateu bem as críticas infundadas de Magno Malta. E louvo a atitude de cada um e uma que foi a esta cova de leões para defender o PLC 122 e os direitos LGBT’s da ignorância e da má-fé de lideranças.
Agora pergunto: um presidente de uma dita federação evangélica provoca vergonhosamente duas Senadoras da República na Comissão de Direitos Humanos, como os vídeos e fotos que já postamos mostram; por que ele não foi retirado do Plenário? Por que Paulo Paim vergonhosamente permitiu que este senhor e os demais provocadores ficassem? Por que são de uma federação evangélica? Semanas atrás, um jovem manifestante contrário ao Código Florestal e desarmado foi atingido por um policial do Senado com uma arma de choque.
Observo que Toni Reis realmente não caiu na provocação, mas gostaria de entender porque ele não fez nada para defender a Cia Triângulo Rosa, já que estava perto deles como as fotos podem mostrar. Eu sei que não devemos devolver a atitude homofóbica na mesma moeda, mas gostaria de entender também porque Toni Reis mantinha uma conversa até amistosa com o Deputado João Campos e um dos provocadores.
Outro ponto a ser destacado é que nós do Eleições HoJE fomos sistematicamente desqualificados por sermos contra o novo texto que Marta Suplicy apresentaria (o que não significa que sejamos contra sua luta, sua parceria). Onde estavam as pessoas que, além de Toni Reis que se fez presente, apoiavam este texto sem sentido? Os militantes que estavam ali eram do Triângulo Rosa, Eleições HoJE, HomofobiaNÃO e Mães Pela Igualdade/Elos LGBT, Alguns da Estruturação, além de autônomos.
Onde estavam os defensores do texto substitutivo Marta-Crivella-Demostenes?
Não havia partidários ao novo texto, que foi amplamente criticado por vários ativistas e juristas.
Quero entender como que os “fiéis” entraram no Plenário com tantos cartazes impressos, adesivos e folhetos infames foram tão multiplicados, por que os evangélicos chegaram diretamente na garagem do Senado, que “reunião com o pastor” foi esta. Pelo visto, foi uma reunião para repassar o roteiro do show: provocar o “satanás” para que assim se possa sair vitorioso. Coisas que só privilegiados conseguem.
Pessoalmente falando, se o povo de “Deus” estava ali presente, gostaria de entender como conseguiram emanar tanta energia negativa para carregar o ambiente.
O fim…
No fim, não houve vencedores. Os direitos humanos e a tolerância perderam neste embate.
No fim, o que restou foram os “fiéis” entoando cânticos religiosos (será que isto também fez parte do roteiro?); jovens evangélicas que debochavam de militantes LGBT’s os imitando quebrando a mão, com voz afeminada e achando o máximo da transgressão estar ali “combatendo os gays”; crianças segurando cartazes contra o PLC; senhoras cansadas por ficarem mais de 4h em pé em nome de um deus que não quer que o diferente tenha espaço; homens orgulhosos de seu “papel de homem”; e as lideranças saindo juntamente com seu luxo.
Aos LGBT’s, sinto que ficou a sensação de dever cumprido como a resistência de Davi feita frente ao Golias: apesar de quererem que o “diferente” se esconda, a diversidade está bem presente. No meu ver, o lado Davi foi importante para mostrar a tal “defesa” da liberdade religiosa. Porventura, não vi nenhuma defesa de liberdade religiosa nem de crença ali. O que eu vi foi um grande Golias de pés de barro, imperioso, estava armado usando da fé de gente simples para massacrar em nome de uma dita liberdade religiosa que não foi vista. Ora, se o PLC122 e a Constituição já preveem a liberdade de crença (onde a Justiça de pauta), onde está o medo? Neste caso, Golias usa Davi para que seus seguidores pensem que há um clima de guerra ou histeria e assim perpetuar-se no poder.
Este novo “debate” sobre o PLC 122 não representou na pedra no meio da testa de Golias, pois o lado opositor não estava a fim de debate. Seguia um roteiro pronto para provocar e acusar os LGBT’s de agressores. Enquanto o uso da fé para fins políticos for feito, este impasse nunca terá fim. No fim, o que restou foi bravura misturada com indignação e o deboche na cara dos provocadores.
A foto abaixo é do UOL . Se vocês, leitoras e leitores, fossem ler a legenda da foto, achariam mesmo que os “pobres cristãos” estavam sendo atacados pelos gays. Mas tento provar no meu relato que a história não foi bem essa que contaram. Vejam que até os provocadores surgem na foto e a cara de satisfação dos “cristãos” com o militante LGBT interpelando o provocador…
A luta continua, leitoras e leitores. O dia em que Golias será derrubado pela pedra chegará.


























Bela reportagem Karla
que coisa mais patética os recursos escusos desses “defensores da família”
caminhamos rumo a uma Teocracia
não me admira se em breve não cogitem de retornar aos tempos Medievais e instituírem os tribunais do Santo Oficio
Relato que só aumenta minha preocupação, mas não mais que minha garra pra continuar lutando. Ótimo texto, Karla.
Muito obrigada, Fiago
Só para deixar bem claro: quando me refiro às pessoas que defenderam o texto da Marta Suplicy e se revoltaram contra a gente, faço a reflexão principalmente para os/as que acusam as pessoas que são ativistas e tem maior visibilidade nas redes sociais de “militantes de teclado”, “fanáticos”, “oposicionistas”. Esse tipo de discussão é tão produtiva quando pão mofado: todo mundo sabe que militância “real” e “virtual” se complementam. A falta de uma causa danos: não é a toa que os fundamentalistas deitaram e rolaram sobre o PLC e levamos anos para criar sites propositivos, para desmascarar as mentiras dos teocratas.
Quem se sentiu incomodado com meu comentário, só lamento. Deveria ter se incomodado antes, quando vieram com pedras e paus contra nosso posicionamento. No final, até a ABGLT reconheceu que o texto da Marta não era bom. Melhor seria se a discussão fosse entorno da discussão de propostas, o invés de táticas para justificar aquele texto.